Poder político e preferências comerciais: a percepção brasileira sobre a China

Janina Onuki

Desde julho de 2012, o CAENI vem desenvolvendo um projeto de pesquisa, em parceria com a North Carolina State University, com o objetivo de investigar a percepção do público sobre o impacto do comércio do Brasil e dos Estados Unidos com a China. É inegável o crescimento econômico, a projeção política, e o aumento do intercâmbio comercial da China com os dois países. Compreender como o público percebe os benefícios e os impactos negativos desse relacionamento são aspectos centrais desta pesquisa.

Inicialmente apoiado pelo Edital UGPN (University Global Partnership Network), a pesquisa tem por objetivo mais específico, compreender como são formadas as preferências da opinião pública em comércio internacional para além de questões relacionadas aos fatores de dotação econômicos, hipótese intensivamente testada nos estudos de economia política internacional. Três ordens de fatores “não-econômicos” recebem atenção especial no estudo, quais sejam, percepções sobre equilíbrio de poder (ordenamento do poder mundial), questões normativas (respeito aos direitos humanos) e ideologia (alinhamento automáticos/xenofobia).

Trata-se de tentar compreender qual o peso específico desses fatores (não-utilitários) na formação de preferências sobre intercâmbio comercial e formação de acordos comerciais interestatais. Outros fatores extra-utilitários, como é o caso do gênero e identificação partidária, não terão prioridade neste estudo comparado, pois já existem estudos consolidados sobre essas temáticas. Como ambas as variáveis (ideologia e partidos) farão parte das informações sócio-demográficas, poderão tomar parte de análise como variáveis intervenientes do modelo analítico.

A hipótese geral do estudo é de que os fatores de dotação não explicam completamente a formação de preferências do público no plano do comércio internacional. Outros elementos intervêm de forma decisiva. Embora, num primeiro momento, não se pretenda fazer a comparação vertical, o estudo está em consonância com estudos cuja hipótese é de que a opinião pública é mais suscetível ao efeito framing pois tem uma priori mais fraca do que as elites.

A segunda hipótese, mais específica, chama atenção para o fato de que, dentre os três fatores não-utilitários apontados, o tema do equilíbrio do poder como fator determinante de preferências é o mais significativo do ponto de vista analítico. Enquanto para os EUA, a China é tomada como uma ameaça para a sua hegemonia, para o Brasil a ascensão chinesa é vista como uma oportunidade de reequilíbrio de poder.

Para testar preliminarmente estas hipóteses, a proposta é aplicar experimentos com surveys (surveys experiments) com uma amostra ampla do público, em ambos os países. Um primeiro pré-teste foi feito neste primeiro semestre de 2013, com uma amostra composta por estudantes da USP e da NCSU, e serviu como piloto para os estudos com a opinião pública, para os quais estamos buscando recursos complementares.

Os questionários aplicados em ambos os países são essencialmente os mesmos, à exceção dos tratamentos específicos para cada um dos países. A proposta é que, para cada uma das três dimensões assinaladas (poder, direitos humanos e ideologia) fosse elaborada uma mensagem específica para efeito de tratamento. Também para cada um dos casos foi usado um grupo controle.

 

 

Os tratamentos usados têm o efeito framing em ambos os países (Brasil e EUA) que tem por objetivo captar a resiliência do posicionamento dos entrevistados. Buscar-se-á, assim, saber a força das posições a priori dos entrevistados sobre o comércio internacional com os outros dois países em questão.

O survey foi aplicado simultaneamente com estudantes das duas Universidades, no período de 1 a 10 de abril (10 dias) utilizando o survey monkey e o grupo controle cobriu uma amostra de 1/3 do número do survey final em cada um dos subgrupos. Duas perguntas abertas permitiam aos respondentes fazer observações livres, considerando a informação que haviam recebido como efeito do framing.

Este texto tem o objetivo de analisar, de forma preliminar, o conteúdo dessas respostas para os questionários aplicados no Brasil. Foram no total 218 respostas que confrontavam as razões de por que o Brasil deveria assinar um acordo de livre comércio com a China e as razões da negativa. A análise dessas respostas buscou examinar a relação entre percepção sobre preferências sobre comércio internacional e o comportamento da China no plano internacional, como potência emergente.

Dentre as razões positivas para que o Brasil assine um acordo comercial com a China, as opiniões dividem-se de forma equilibrada entre os que argumentam a favor da ampliação do intercâmbio comercial, e os que mencionam o fato da China ser uma potência econômica. Na realidade, ambas as respostas convergem na percepção do aumento de poder da China no sistema internacional. A divisão de respostas refere-se ao fato de que um primeiro conjunto de respostas (30%) enfatiza os benefícios comerciais que o Brasil pode obter da negociação com o país asiático.

O segundo conjunto de respostas (25%) enfatiza claramente o poder político da China num possível reequilíbrio de poder (em contraposição à hegemonia americana). O destaque à palavra “potência” (em menor escala, “superpotência”) é recorrente nestas respostas, além da referência à dimensão do poder econômico, o fato do País fazer parte do BRICS, ser membro permanente no Conselho de Segurança da ONU. Todas estas palavras remetem ao poder da China e estão relacionadas, na opinião dos respondentes, aos benefícios que podem ser derivados de uma aproximação do Brasil. Além disso, há menções para o fato de que um acordo com a China também reduziria a influência norte-americana na América do Sul, fator visto como benéfico para o Brasil.

Essas respostas estão associadas (em alguns casos, elas se sobrepõem na mesma resposta) ao fato da China ser um parceiro comercial fundamental para o Brasil. Sobre esta variável, foram agregadas as respostas que mencionam os benefícios que o Brasil poderia obter com aumento das exportações dos nossos produtos e a importação de produtos chineses. Mas, fundamentalmente, a referência nas respostas se dá pela menção ao fato da China já figurar como o principal parceiro comercial do Brasil.

Outros fatores também são mencionados a favor de uma maior aproximação entre Brasil e China, nesta ordem de prioridade: 1- a possibilidade de redução de preços e tarifas de produtos brasileiros (16%). Aqui prevalece a percepção de que o baixo valor dos produtos chineses tenderia a pressionar à redução do preço dos produtos nacionais a fim de torná-los mais competitivos. Outro ponto mencionado é a possibilidade de abrangermos um enorme mercado consumidor com nossos produtos. Mas esta opinião é matizada pela necessidade de tornar nossos produtos mais competitivos no mercado externo. Do ponto de vista comercial, o potencial mercado consumidor para os produtos brasileiros poderia ser visto como um aspecto central para o Brasil. Mas apenas 5% respondentes mencionam este item de forma explícita.

2- Em segundo lugar foi mencionado o benefício de transferência de tecnologia (8%), a percepção é de que o Brasil pode ser beneficiado pela detenção de tecnologia de ponta por parte da China. A possibilidade de um acordo de comércio prever a transferência de tecnologia para produtos manufaturados e eletrônicos é vista como um elemento benéfico, ao lado da referência ao elevado grau de desenvolvimento da nossa agricultura.

3- Finalmente, duas outras variáveis são mencionadas, numa quantidade bem menor de respostas: a possibilidade de redução do custo da mão-de-obra (5%) e a diversificação de produtos nacionais vendidos no Brasil (1%). A percepção generalizada é que a mão-de-obra barata utilizada na produção de produtos chineses pode influenciar os produtos brasileiros no mesmo sentido. Esta colocação se observada de forma paralela à análise voltada para um “não-acordo”, como veremos a seguir, a percepção é que a mão-de-obra barata utilizada na fabricação dos produtos chineses é um mau exemplo para o Brasil, e deveria ser combatida na China (geralmente associada ao abuso de direitos humanos).

Um segundo conjunto de respostas refere-se à pergunta “você consegue imaginar razões pelas quais o Brasil não deveria assinar um acordo de livre comércio com a China?”. É interessante notar que as respostas, neste caso, também se dividem em duas orientações: uma relacionada a questões econômicas e comerciais e outra que faz menção a questões políticas. A grande maioria (34%) teme em relação à concorrência com produtos chineses. A percepção é que um acordo mais amplo com a China afetaria diretamente os produtos produzidos no Brasil, tanto do ponto de vista do preço, como de qualidade. As respostas dividem-se entre a “perda de mercado para os produtos chineses”, a “falta de competitividade das indústrias brasileiras” e “baixa qualidade dos produtos chineses”, ou “legalidade e procedências duvidosas dos produtos chineses”. Todas essas respostas referem-se exclusivamente ao impacto econômico e comercial que o acordo poderia gerar.

Relacionado a este impacto, 17,5% dos respondentes mencionam o “aumento do desemprego” e o risco de aumento da “exploração de mão-de-obra barata” como fatores preocupantes. Aqui o desemprego está relacionado ao temor da entrada de produtos chineses a preço mais baixo e, consequentemente, a dispensa de empregados das indústrias pela incapacidade de competição. Ou seja, o temor do desemprego não está relacionado à migração de trabalhadores chineses para o Brasil e ocupação dos seus postos de trabalho, mas sim ao possível fechamento de empresas incapazes de competir com os produtos chineses.

Mas o que chama atenção é a recusa do acordo em função de aspectos políticos, explicitados nas perguntas abertas. É claro que esta análise precisa levar em consideração o efeito do framing que foi aplicado. Mas aqui o que se pretende é apenas destacar algumas percepções mencionadas espontaneamente que devem corroborar com as hipóteses anunciadas pela pesquisa. O que observamos nas respostas espontâneas é que 28% dos entrevistados referiram-se ao fato da China não cumprir várias regras internacionais, tanto no que se refere a aspectos de um regime democrático, como de violação de Direitos Humanos. Neste caso, a assinatura de um acordo comercial significaria, por parte do Brasil, dar legitimidade a um regime autocrático e a um País que viola significativamente os Direitos Humanos. E esta violação é atribuída à exploração do governo em relação aos seus próprios trabalhadores.

A percepção predominante é que a recusa do Brasil em assinar um acordo de livre comércio, mesmo que benéfico para o nosso País, seria uma forma de pressionar a China a se tornar mais democrática e mais cumpridora de regras internacionais de Direitos Humanos e de respeito ao meio ambiente (embora este tema seja mencionado um número menor de vezes, a questão do meio ambiente é lembrada por alguns entrevistados).

 

 

Se na pergunta sobre os benefícios de assinar um acordo, a referência à possibilidade de contrabalançar a presença dos Estados Unidos na região aparece como um elemento relevante, aqui, apenas 4% dos entrevistados faz referência ao temor de que o Brasil se torne mais dependente da China, e essa dependência é sempre vista do lado comercial e não político, como é a percepção em relação aos norte-americanos.

O que podemos destacar, apenas analisando o conjunto de respostas às duas perguntas abertas do questionário, sem ainda fazer qualquer tipo de inferência, é que há uma coerência nas respostas no sentido da distinção entre aspectos econômicos e políticos. Os benefícios do acordo aparecem tanto como oportunidades de ampliação do intercâmbio comercial, como na possibilidade de se relacionar com uma potência emergente, fazendo frente aos Estados Unidos na região.

A percepção de que não deveríamos assinar um acordo com a China também se divide entre aspectos políticos e econômicos. Em primeiro lugar a visão de que a China não cumpre várias regras democráticas e que o Brasil não deveria legitimar o seu comportamento autoritário através de um acordo comercial, sobretudo porque o comércio traz em si uma exploração dos direitos humanos na China. Por outro lado, as respostas destacam o impacto que a entrada dos produtos chineses teria sobre os nossos, em termos de preço e produção. Interessante notar que ao mesmo tempo em que uma parte significativa do público percebe que nossa indústria não é competitiva com os produtos chineses, estes mesmos indivíduos opinam que isso pode servir como pressão para uma redução dos nossos preços e impostos domésticos.

Este trabalho ainda é embrionário, mas esta primeira etapa da pesquisa já trouxe elementos importantes para reflexão e que corroboram as hipóteses iniciais: traz elementos externos ao campo dos fatores de dotação para a compreensão da preferência do público em termos de política comercial. É nesta agenda que ainda pretendemos avançar com parcerias internacionais produtivas, como tem sido com a North Carolina State University.

 

Referências

Ardanaz, Martin, Murillo, M. Victoria and Pinto, Pablo M. (2013). Sensitivity to Issue Framing on Trade Policy Preferences: Evidence from a Survey Experiment. International Organization, vol. 67, nº 2, pp. 411-437.

Barabas, Jason and Jerit, Jennifer (2010). Are Survey Experiments Externally Valid? American Political Science Review, vol. 104, nº 2.

Druckman, James N. (2001). The implications of Framing Effects for Citizen Competence. Political Behavior, vol. 23, nº 3, September.

Mintz, Alex & Redd, Steven B. (2003). Framing Effects in International Relations. Synthese, vol. 135, nº 2, May, pp. 193-213.

 

Janina Onuki é professora associada do Instituto de Relações Internacionais, vice-coordenadora do Núcleo de Estudos Comparados e Internacionais (NECI) e pesquisadora do Caeni-USP. Foi professora visitante na School of Public and International Affairs da NCSU de janeiro a junho de 2013.

 

 

 

 

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