ENTREVISTA: Adriana Schor, professora do Instituto de Relações Internacionais, pesquisadora visitante do GIGA (agosto de 2012 a julho de 2013).

1. Originalmente você vem da economia. Como evoluiu a sua agenda de pesquisa desde o seu ingresso no Instituto de Relações Internacionais da USP? 

Em economia, meu interesse sempre girou em torno de questões de desenvolvimento e crescimento econômico. De uma forma ou de outra, isto sempre cai em discussões de políticas públicas. Meu doutorado, embora tenha sido sobre uma questão muito específica, o impacto da redução tarifária na produtividade das firmas industriais brasileiras, está inserido nestas questões.

Assim, embora minha agenda de pesquisa hoje tenha questões específicas um pouco diferentes (qual o impacto da interdependência econômica sobre a cooperação internacional), ela continua girando em torno das minhas questões iniciais: desenvolvimento, crescimento e políticas públicas. Agora num contexto mais internacional e se aproveitando da abordagem teórica de economia política internacional.

2. Como tem sido a sua experiência de fazer pesquisa em ambiente interdisciplinar? Quais são, na sua avaliação, os principais ativos e desafios de uma pesquisa deste tipo?

Como todos que já experimentaram sabem, não é fácil fazer pesquisa interdisciplinar. Ela exige um esforço extra de humildade em reconhecer que seus conhecimentos são insuficientes para responder todas as questões do seu interesse. Na minha avaliação, isso abre enorme possibilidade de entender o mundo e as questões relevantes em relações internacionais. Infelizmente, e aí está a graça de fazer pesquisa interdisciplinar, não há receita de sucesso. Tudo depende do entrosamento dos pesquisadores e no comprometimento com a ideia.

3. Especificamente neste período de pós-doutorado no Giga (Alemanha), qual foi a pesquisa desenvolvida?

Durante os dez meses em que fiquei licenciada das minhas atividades docentes e administrativas no IRI/USP, me dediquei a estudar mais sobre a minha questão de pesquisa, que relaciona interdependência econômica e cooperação internacional. Mais especificamente, meu trabalho perguntou se a intensificação de fluxos de comércio intra-IBAS (Índia, Brasil e África do Sul) pode ajudar no fortalecimento da cooperação internacional entre os três países.

4. Quais são as áreas fortes de pesquisa do Giga na área de Relações Internacionais e EPI? Em quais delas a USP pode ampliar redes de pesquisa?

O Giga é um instituto de pesquisa relativamente grande, com mais de 120 pesquisadores contratados, que trata de diversas áreas relacionadas a questões internacionais como democracia, segurança, economia, sistemas políticos e governança global. O Instituto fez recentemente um grande esforço de internacionalização e o inglês passou a ser a língua oficial de pesquisa. Isso aumenta a nossa possibilidade de formação de redes de pesquisa com os pesquisadores associados. Há grande interesse no Brasil e o IRI/USP pode, e deve, ser um ponto de apoio para estes pesquisadores. Os programas para receber pesquisadores estrangeiros, em qualquer estágio da sua carreira, são possibilidades que não devem ser desperdiçadas.

5. Como é a estrutura e funcionamento do Giga? É possível aplicar um modelo similar no Brasil?

O Giga é composto por quatro institutos regionais: o instituto de estudos latino-americanos (ILAS), de estudos asiáticos (IAS), de estudos africanos (IAA) e do Oriente Médio (IMES).

Além disso, há quatro programas de pesquisa transversais, que reúnem pesquisadores dos quatro institutos regionais. São eles: legitimidade e eficiência dos sistemas políticos, violência e segurança, desafios sócio-econômicos no contexto da globalização e, finalmente, poder, normas e governança nas relações internacionais. O Giga é um dos vários institutos de pesquisa do chamado Leibniz Association, que congrega e financia institutos de pesquisa de diversas áreas, desde biologia até relações internacionais.

Assim como quase tudo na Alemanha, fica difícil pensar em replicar este modelo de pesquisa no Brasil. Os institutos têm anos de evolução na sua organização, cujo modelo de gestão e financiamento está intimamente relacionado à forma com que o país pensa pesquisa, educação, desenvolvimento e economia.

Por outro lado, uma característica interessante e que pode ajudar a pensar os vários institutos de pesquisa em relações internacionais que estão sendo criados recentemente no Brasil é a importância tanto do estudo de área geográfica, quanto do tema de pesquisa. Não é possível compreender o mundo, ou partes dele, sem o conhecimento da história e geografia do local de estudo. Também não dá para deixar de lado questões teóricas e temáticas que perpassam as questões locais. Não é uma tarefa fácil, mas a meu ver, a estrutura do Giga aponta na direção correta.

6. Da ótica da economia, quais são os principais desafios da formação de um pósgraduando de relações internacionais?

Desde 2008, ano em que ingressei no IRI/USP, vejo uma mudança significativa na forma como os alunos, tanto de graduação quanto de pós-graduação, se relacionam com as disciplinas de economia. Hoje há um relativo consenso de que não dá para entender grande parte das questões de relações internacionais sem entender de economia. Infelizmente, há uma grande barreira para os não-economistas entrarem em contato com a literatura que se produz nos departamentos de economia. Este é um grande desafio para alunos e professores, pois há a necessidade de usar as contribuições da teoria econômica para os estudos de relações internacionais. Por outro lado, há também uma extensa literatura, que usa a teoria econômica, mas que está preocupada em lidar com questões empíricas. Aí não há desculpas: um bom curso de metodologia quantitativa insere os alunos de pós-graduação nessa área.

Também tem crescido a área de economia política internacional, tanto no Brasil quanto no exterior. Esta também tem produzido uma literatura baseada em teoria econômica, mas com uma linguagem menos formal que permite aos alunos de relações internacionais ter contato com vários temas e questões de economia. Novamente, este não é um desafio trivial para muitos alunos que não tiveram formação básica em economia na graduação. Mas a pós-graduação é para isso mesmo: criar novas competências, conhecer nova literatura e vertentes teóricas para enfrentar as questões de relações internacionais de uma maneira mais adequada.

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