A Carga mais que Pesada do Mercosul

Janina Onuki

 

 

Após o retrocesso das negociações da Alca, o governo brasileiro - que aparentemente não lamentou o afastamento dos EUA - passou a apostar suas fichas na integração com a União Européia (UE). A Argentina, agora não tão alinhada aos EUA como na década de 90, acompanhou o Brasil, mas o Mercosul não entrou coeso no jogo.

No discurso diplomático brasileiro, o acordo Mercosul-UE parecia ser mais palatável do que o que vinha sendo negociado para a Alca. Eis por que foi maior a disposição política para negociar com os europeus. Além disso, a simpatia e a suposta identidade entre os dois blocos facilitariam a aproximação.

De fato, inicialmente parecia haver real sintonia entre as duas partes. Tanto que, no início deste ano, durante os vários encontros entre representantes da UE e do Mercosul, a perspectiva era de que um acordo fosse fechado neste mês de outubro. Entretanto, o vaivém das negociações revelou dificuldades não previstas no discurso da cooperação.

A divergência de interesses entre Brasil e Argentina reflete-se nas negociações com a UE. Da parte da UE, além dos problemas estruturais que lhe são característicos, como o protecionismo agrícola francês, a recente inclusão de países do Leste Europeu no bloco diminuiu em outro tanto a disposição dos europeus para fazer ofertas mais generosas ao Mercosul.

A última proposta do Mercosul representa o mínimo denominador comum a que se conseguiu chegar entre os parceiros do bloco. Por isso foi tão tímida a proposta brasileira. Nesse contexto, ficam claros os custos que o Brasil deve enfrentar ao defender sua liderança - carregar um Mercosul com tantos problemas e baixas expectativas é carga nada desprezível.

Duas questões são centrais. Até quando sobreviverão as negociações com a UE (e com outros blocos e países), sendo o Mercosul frágil como é e sem que haja uma estratégia comum? Até quando as negociações externas sustentarão o Mercosul? Negociações com a Alca, União Européia, Índia, África do Sul não serão suficientes se o Brasil não assumir a liderança do bloco e se os países-membros não se comprometerem com a integração.

Além disso, é preciso redefinir os objetivos do acordo Mercosul-UE. Caso contrário, essas negociações também se tornarão irrelevantes. Vale lembrar que, até bem pouco tempo, a UE era utilizada como peça de barganha nas negociações com os EUA a respeito da Alca.

fonte: Publicado no jornal Valor Econômico. Sexta-feira e fim de semana, 15,16 e 17/10/2004, Caderno Eu & Fim de semana.
15/10/2004

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