O Terror Como Espetáculo

João Paulo Cândia Veiga

“Os guerreiros suicidas que atacaram Washington e Nova Iorque em 11 de setembro de 2001 fizeram mais do que matar milhares de civis e demolir o World Trade Center. Eles destruíram o mito dominador do Ocidente”. John Gray[1]
Passados três anos desde o 11/09, começa a fazer mais sentido o enorme quebra cabeças que se montou a partir das análises e estudos que emergiram sobre o fenômeno do terrorismo. A brutalidade da violência foi de tal ordem que é preciso alguns anos até que as perguntas suscitadas pela queda das torres possam, ao menos, ser organizadas a partir do conhecimento prévio que se tem sobre o assunto. Não é preciso dizer que o sentimento de perplexidade geral ainda permanece intacto, haja vista a seqüência de ações terroristas que se sucederam: Bali, Madri e Ossétia do Norte, para ficar apenas naqueles casos de maior repercussão internacional.

Há três ordens de considerações que ajudam a organizar o debate acerca do terrorismo pós 11/09. Em primeiro lugar, há uma discussão que vincula o terrorismo às mudanças por que vem passando o sistema internacional desde o final da Guerra Fria. Nessa perspectiva, uma das indagações mais importantes é como o fenômeno do terrorismo, no âmbito das relações internacionais, impacta o sistema constituído por Estados soberanos. Dessa forma, abrem-se várias perspectivas analíticas como o papel da segurança na relação entre os Estados, a perspectiva doméstica das Relações Internacionais com a ameaça aos direitos civis nos EUA e na Rússia, entre outras abordagens.

Em segundo lugar, a discussão sobre o terrorismo desenvolve-se a partir de uma perspectiva “culturalista” que articula o fenômeno à identidade e aos valores de padrões culturais dominantes. Nesse caso, há um claro recorte de natureza religiosa que identifica o 11/09 como obra de grupos que se utilizam da violência, e definem o seu Ethos no âmbito do fundamentalismo islâmico. Dessa forma, o “novo” terrorismo manifesta-se como um choque de valores, da identidade e dos princípios ocidentais, a la Huntington. Sabe-se que uma das fragilidades da análise deste autor está precisamente em não deixar qualquer possibilidade de comunicação (e de mudança) entre os “blocos” culturais que passam a ser tão impenetráveis quanto incompreensíveis um para outro. Daí para enxergar o 11/09 como a manifestação da barbárie e do atraso, de grupos que pregam valores e idéias oriundas do mundo medial, é apenas um pulo.

Por último, pergunta-se acerca da novidade do 11/09. Essa é uma discussão que busca entender o terrorismo em si mesmo, sem o recorte culturalista ou na relação com o sistema internacional. De fato, há algo de novo nos ataques às torres e ao pentágono, considerando-se a história do terrorismo?

Esse texto desenvolve, sucintamente, algumas variáveis para pensar se o terrorismo pós 11/09 apresenta, efetivamente, alguma novidade em relação ao repertório de ações, grupos e ideologias, de direita e de esquerda, que alimentaram o terrorismo desde o final do século XIX, para ficarmos apenas no período mais recente.

Nessa perspectiva, há quatro variáveis, derivadas uma da outra, que poderiam confirmar a novidade do 11/09. Evidentemente, essas são questões em aberto, o texto não procura uma explicação possível mas apenas organiza as variáveis que condicionam o nosso objeto de discussão. São elas a 1. relação entre meios e fins, tema clássico da Política, 2. a questão da organização da Al Qaeda, 3. O problema relativo à amplitude geográfica das ações, e 4. a dimensão simbólica global do evento que parte dos grupos terroristas parece estimulado a buscar.

A limitação geográfica é a mais convincente mas a menos importante das quatro. Enquanto os grupos tradicionalmente reconhecidos como terroristas, como o IRA, o ETA, o Hezbolla e a Jiha Islâmica sempre pautaram suas ações por alvos localizados regionalmente, isto é, o fenômeno está ligado a um conflito de dimensões locais (árabe-israelense, país Basco, Irlanda do Norte, etc.), o 11/09 é um evento efetivamente global. Foi realizado dentro da casa do “inimigo”, planejado com inteligência militar, e fez-se uso de armamento “leve” ou praticamente inexistente.

Essas características estão, obviamente, vinculadas à forma de organização terrorista. Aparentemente, o fato de ação praticada ter sido preparada na casa do “inimigo” sugere que o Al Qaeda seja, na realidade, algo realmente intangível, sem domicílio político claro. A “Base”, a tradução literal da expressão árabe que dá nome ao grupo, poderia ter o nome de a “Rede” ou um networking de vínculos entre grupos dispersos, de matizes políticas e ideológicas eventualmente bastante distintas. Nesse aspecto, o “novo” terrorismo é mesmo filhote da globalização porque beneficia-se da tecnologia da informação como arma invisível e difusa para praticar suas ações.

Sugiro que o aspecto mais instigante, do ponto de vista da reflexão, é o fato do 11/09 não apresentar um vínculo muito forte entre os meio empregados e os fins desejados, raciocínio típico da ação política. Grupos terroristas tradicionais se utilizam, muitas vezes com precisão cirúrgica, de ações com objetivos muito claros, e resultados também palpáveis. A ação espetacular, o uso de aeronaves civis, a simbologia que envolve as duas torres, e a ação sobre o pentágono são todos eventos “grandes demais” para parecerem verdadeiros. Como foi dito após os atentados, nenhum roteirista de Hollyhood teria imaginado um argumento desses. Essa característica do 11/09 de ser “bigger than life” alimenta a mitologia de que o Ocidente não é inexpugnável e que pode ser alvejado de “dentro para fora”. Nesse aspecto, sem dúvida, um limite foi ultrapassado pelo grupo de Osama Bin Laden.

É verdade que podemos colocar na conta da Al Qaeda a mudança no resultado das eleições espanholas depois do atentado de Madri em março de 2004. Mesmo que não fosse esperado, é plausível imaginar que a Al Qaeda instrumentalize o terror para também obter resultados políticos precisos com suas ações. Na realidade, não quero sugerir que o 11/09 tem efeito apenas simbólico. Ao contrário, a idéia central é a de que os atentados elevaram os efeitos políticos do terror a um outro patamar.

O vínculo entre meios e fins certamente existe mas ele é muito mais difuso e ambíguo. Nesse sentido, podemos acreditar em Osama Bin Laden quando diz que a queda das torres vingou a expulsão dos árabes da Andaluzia em 1492. O nexo causal entre os dois eventos não é uma insanidade, se levada a sério, nem uma ironia para jogar poeira nos olhos dos analistas.

Essa suposta dissociação entre a violência empregada na ação e os fins almejados está no cerne de uma suposta “novidade” contida no 11/09. Na verdade, a Al Qaeda subverteu a dimensão teatral da ação Política, presente desde a antiguidade: a política como teatro deu lugar ao horror como espetáculo. Nesse caso, o palco é o próprio mundo e a peça se desenrola a partir dos constrangimentos impostos pelo mercado e pela instabilidade decorrente da condição “solitária” dos EUA como potência militar unipolar. A “solidão” é resultado da contradição entre o potencial de poder como força e as condições materiais e ideológicas para o exercício da hegemonia decorrente desta condição. Em resumo, os EUA têm em mãos o potencial para colocar em uso o poder militar disponível mas não consegue a legitimidade para o seu exercício. Além disso, outros aspectos relativos à hegemonia, como o “soft power”, encontra cada vez maior resistência de parte de países que se sentem ameaçados pelo poderio norte-americano.

De fato, o 11/09 não tem um objetivo político preciso, direcionado à consternação de uma audiência determinada étnica ou geograficamente. O objetivo é simbólico, ele fere as entranhas da matriz cultural civilizatória ocidental ao enfraquecer a confiança geral acerca de valores como a liberdade, o direito à vida, etc. Ele é um apelo visceral à reflexão sobre a morte súbita e ao risco permanente de uma ruptura.

Esses elementos só ganham essa dimensão global em razão de outro ingrediente fundamental que maximiza o choque e o mal estar geral: a mídia. Esse é o mecanismo que subverte a relação entre meios e fins e que maximiza o fenômeno como um espetáculo de dimensões épicas. Só a ameaça de uma guerra nuclear, no período da Guerra Fria, havia provocado tal sensação de pânico. Ainda assim, foram em situações limite como a crise dos Mísseis de Cuba.

É por essa razão que o terrorismo deve continuar sendo um fenômeno quase totalmente incompreendido. Ele não tem domicílio, não tem rosto, aparece como a manifestação da violência vazia, sem sentido e, ao mesmo tempo, mais brutal e chocante. Nesse aspecto, um ataque alienígena à terra, na melhor tradição de Hollywood, e o 11/09, têm quase o mesmo efeito cognitivo. A perplexidade permanece a reação dominante.

As duas torres já haviam suportado o peso de King Kong na segunda versão do filme em 1976[3]. A natureza bestial do macaco, aprisionada pelo Homem, é finalmente vencida pela tecnologia e pelo conhecimento. Nada mais enganoso do que comparar a Al Qaeda às forças da natureza. Osama Bin Laden conseguiu fazer um filme de terror a partir de uma idéia muito próxima a todos nós. Essa é a fonte do desconforto geral com o 11/09. Isso não significa que todas as ações terroristas trarão, necessariamente, esse elemento. Contudo,a novidade é a de que o limite foi ultrapassado.


Diretor de Projetos do Centro de Estudos das Negociações Internacionais (CAENI) e Coordenador do Instituto Observatório Social em São Paulo.

fonte: 
1/8/2005

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