Nicolás Maduro busca enfraquecimento da oposição com cautela

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Rafael Villa, professor de ciência política, avalia que a prisão de Juan Guaidó parece interessante ao governo de Nicolás Maduro, mas pode transformar o líder oposicionista em mártir.

O Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Venezuela, controlado pelo chavismo, cassou a imunidade parlamentar do líder opositor Juan Guaidó e abre caminho para que ele seja preso. A corte tomou a decisão ao considerar que o deputado infringiu uma proibição de saída do país que tinha sido imposta a ele em 29 de janeiro. Nesse dia, o TSJ abriu uma investigação contra ele por “usurpar” as funções do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. O congressista fez, na ocasião, uma visita a vários países da região, na tentativa de fazer entrar na Venezuela doações de alimentos e medicamentos enviados pelos EUA. A decisão anunciada pelo Tribunal é a última de uma série de medidas contra Guaidó. O presidente do tribunal, Maikel Moreno, também bloqueou os bens do deputado e reiterou sua proibição de deixar o país. O Jornal da USP no Ar conversou sobre o assunto com o professor Rafael Villa, do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Para Villa, a situação pode gerar conforto para o governo de Maduro, em relação à oposição e principalmente quanto a Guaidó. O especialista comenta que o governo não se atrevia a tomar uma medida mais drástica, como prender a liderança da oposição, porque “Guaidó havia capitalizado um apoio interno, uma base bastante expressiva da população e também o apoio de muitos países do mundo – mais de 50 países”, mas agora a situação é diferente: “a oposição não está na sua melhor hora” e Maduro concentra esforços para enfraquecê-la ainda mais.

Quanto ao apoio militar da Rússia influenciar o momento de fraqueza da oposição e fortalecimento de Maduro, o professor acredita que “enquanto o governo de Maduro continuar tendo apoio tão importante da China e da Rússia, dificilmente a oposição e Guaidó conseguirão isolar Maduro internacionalmente”. O cientista político comenta que o interesse da Rússia na Venezuela tem relação com o estreitamento de laços políticos, econômicos e militares, que acontece desde a época de Hugo Chávez, quando a Rússia se transformou no principal vendedor de armas para a Venezuela. “Por isso o apoio ao governo de Maduro, como um aliado na América Latina.”

De acordo com Villa, “o governo sabe perfeitamente que, fora Guaidó, não existem lideranças de qualidade dentro da oposição” e portanto a prisão poderia ser interessante. Mas há um contraponto que merece avaliação: “Se Guaidó for preso e conseguir voltar em liberdade, ele pode ser transformado praticamente em um mártir”. Nesse âmbito, “o governo está avaliando se vale a pena encarcerar Guaidó, está tentando enfraquecê-lo sem chegar à decisão extrema de prendê-lo”.

Por , da Rádio USP.
Entrevista publicada em 03/04/2019.

Ouça a entrevista:

Fonte: Jornal da USP